Com a dupla do canal SOLTOS S.A. (André Lage e Carol Tilkian), 

com a participação especial da psicóloga e sexóloga Ana Canosa.

Abrindo a temporada 2020, de cara nova, o episódio #11 do almasculina” traz uma conversa com a dupla do canal SOLTOS S.A. (@soltos_sa). André Lage (@andre.lage) e Carol Tilkian (@caroltilkian) falam sobre solteirice e relações casuais no Brasil e no mundo, tecnologias e afetividades… Sempre relacionados à suas visões sobre as masculinidades.

A psicóloga e sexóloga Ana Canosa (@anacanosa) é a nossa convidada no “Lugares Comuns”, quadro que dá voz a especialistas, gente que pesquisa e entende muito do assunto, explicando termos, conceitos e ampliando a nossa visão sobre tópicos mais específicos.

Ouça aqui o episódio na íntegra:

– Assista trechos inéditos da conversa com a dupla do canal SOLTOS S.A. no nosso canal no Youtube

ASPAS

“Sociedade do Cansaço”, de Byung-chul Han

“O sujeito do desempenho pós-moderno, que dispõe de uma quantidade exagerada de opções, não é capaz de estabelecer ligações intensas. Na depressão, todas a ligações e relacionamentos se rompem, também a ligação consigo mesmo. O luto distingue-se da depressão sobretudo por sua forte ligação libidinosa com um objeto. A depressão, ao contrário, não tem objeto, por isso não tem uma orientação definida. Faz sentido distinguirmos a depressão também da melancolia. A melancolia é precedida por uma experiência de perda. Por isso, ela ainda sempre se encontra numa relação, a saber, numa relação negativa para com o ausente. A depressão, ao contrário, se vê cindida de toda e qualquer relação e ‘elo de ligação’. O luto surge quando se perde um objeto com forte carga de libido. Quem está de luto encontra-se totalmente junto ao outro amado. O ego pós-moderno emprega grande parte de sua energia da libido para si mesmo. O restante da libido é distribuído em contatos sempre crescentes e relações superficiais e passageiras. Em virtude de um fraco ‘elo de ligação’, é muito fácil retirar a libido de um objeto e com isso direcioná-lo rumo à posse de novos objetos. O ‘trabalho de enlutamento’ demorado e dolorido acabou se tornando desnecessário. A ‘alegria’ que se encontra nas redes sociais de relacionamento tem sobretudo a função de elevar o sentimento próprio narcísico. Ela forma uma massa de aplausos que dá atenção ao ego exposto ao modo de uma mercadoria”. 

ESCUTA AQUI

André Lage indicou:

– O TEDtalks intitulado “Connected, but alone?” (“Conectado, mas sozinho?”), com Sheryl Turkle, professora de estudos de ciências sociais e tecnologia do MIT, autora do livro “Alone Together: Why We Expect More from Tecnology and Less from Each Other” (“Sozinhos: Por que Esperamos Mais da Tecnologia e Menos Uns dos Outros”);

O documentário The Mask You Live In (“A máscara em que você vive”), disponível na NETFLIX;

– O vídeo do canal SOLTOS S.A., “Virgem aos 27, autoestima no pé e bullying, como não sucumbir?”, com o Ricardo Cestari; 

– O filme “A Vida Invisível”, de Karin Ainouz, vencedor do prêmio principal da mostra paralela Un Certain Regard (Um Certo Olhar) do Festival de Cannes 2019;

– O episódio “Striking Vipers” (“Víboras Impressionantes”) da 5ª temporada da série britânica Black Mirror, disponível na NETFLIX; também comentado no episódio #11 – Bromance e Black Mirror, do podcast Homem Também Chora

Carol Tilkian indicou:

– A série de documentários da jornalista da CNN, Christiane Amanpour, “Amor e Sexo Pelo Mundo”, disponível na NETFLIX;   

– Os filmes “Coringa”, de Todd Phillips; e “1917”, de Sam Mendes, ambos indicados ao OSCAR 2020 de melhor filme;

– E o livro “Consolação”, de Carlos Messias.

Paulo Azevedo indicou a série Modern Love (Amor Moderno), da Amazon, com 8 episódios de 30 minutos, baseada na coluna semanal publicada pelo The New York Times. E o livro “Sexoterapia”, da Ana Canosa, que estreou no almasculina” neste episódio no “Lugares Comuns”. Ela descreve os processos, em forma de crônicas, de 15 casos clínicos, todos envolvendo queixas sexuais, sejam as de identidade sexual, de orientação sexual, fantasias ou disfunções sexuais.  É impossível não se identificar (ou se emocionar!) com personagens ou histórias, o que favorece questionamentos e entendimentos. Um livro de fácil leitura, dirigido tanto para aos profissionais de saúde, quanto para leigos que se interessam pelo tema da sexualidade e relações afetivas.

E mais:

Você conhecia estes termos?

FoMO (Fear Of Missing Out)  

Incels

Monogamish

Movimento #metoo

Self purchase

White people problem

LUGARES COMUNS com a psicóloga e sexóloga Ana Canosa

Paulo Azevedo: “Tecnologias e afetividade. O que mudou e pra onde isso pode ir? A era do humanismo acabou? Como é que você está vendo todo esse ser virtual? Eu já ouvi uma frase ‘Vir a ser alguma coisa’ porque são personas que cada um assume ali. Dentro isso, os números absurdos de usuários de aplicativos, de distúrbios causados por aplicativos. Quais são os novos tipos de violência presentes também nestas comunicações?”

Ana Canosa: “Acho que tudo é muito novo. A gente ainda tem poucos estudos sobre estas manifestações via as mídias, via os meios de comunicação, internet etc. Então, a gente ainda tem pouco estudo pra dizer. Tá mudando tudo: mudou a maneira de como a gente se relaciona; mudou a maneira como a gente se expressa. É muito mais fácil você adentrar no seu mundo transgressor, o seu mundo dos desejos criando personas na internet, só que esse é seu eu também. A internet é uma ferramenta que possibilita você projetar-se, acessar partes de você garantindo um certo controle que você acha que tem. Então, as pessoas se veem no direito de xingar as outras, por exemplo, no twitter. As pessoas se veem no direito de falsear a sua identidade pra encontrar parceiros, de buscar as suas práticas sexuais mais desviantes como estimulo sexual porque isso te garante, entre aspas, um certo controle e um certo afastamento, uma certa defesa do olhar social”.

Paulo Azevedo: “Não à toa, tem um número que o Brasil é um dos maiores consumidores de pornografia trans e um dos que mais mata no mundo”.

Ana Canosa: “Exatamente. Então, você acessa um lado seu que eu acho que o grande problema é que elas não fazem reflexões sobre isso. Então, elas vão acessando, acessando… Esse ser virtual é muito desconhecido pro indivíduo. O virtual é o que pode vir a ser. Esse que pode vir a ser é você mesmo. E a internet possibilita que você navegue por isso com desdobramentos nunca dantes conhecidos. Então, você vai se testando. Esse controle da ética é seu, não é externo. Os controles na internet são muito básicos, são ferramentas tecnológicas: você põe um filtro aqui, você não pode entrar aqui, maior de 18 anos…, mas é muito ‘pseudo’ o controle. O controle depende de você. O controle do seu valor. A escolha entre transgressão e tradição é da ordem do humano, é o conflito do homem em sociedade, quer dizer, como é que eu vou escolher entre o meu desejo e o meu dever. A internet é terra de ninguém. As pessoas se veem em expressar sem a necessidade do controle. O controle vem do seu eu. É o seu superego, é a sua ideia de ética, de realidade, de desejo, de prazer… Como é que eu vou criar cidadãos que saibam manejar esse ser virtual é o nosso grande desafio. Como é que eu vou ajudar jovens e adolescentes a manejar a internet, o seu ser virtual, aprendendo a lidar com ele, conhecendo ele, crescendo nele, como é que eu vou ajudá-los a fazer reflexões pra que eles próprios possam controlar a sua navegação interna que passa pela sua alma, sentimentos, psiquismo, pelo seu estar no mundo, pelas relações com os outros? Então, a gente precisa educar pra tecnologia fazendo essas reflexões, inclusive no campo da sexualidade. Outro dia eu vi uma pesquisa mexicana interessante sobre o uso do whatsapp que falava sobre violências no whatsapp, com 300 e tantos jovens universitários. O que eles relatavam como violência, duas coisas aparecem: receber filmes pornográficos, fotos de genitais ou pessoas nuas sem ter pedido – e isso acontece o tempo inteiro nos grupos masculinos, mais que nos femininos. No Brasil, isso acontece muito. Seu amigo acha legal te mandar uma sacanagem. E a outra era a falta de resposta, o silêncio da resposta no whatsapp sentido como violência – eu mando uma mensagem pra você e você não me responde ou você sumiu. A gente tá trocando ali, a gente se conheceu no Tinder ou saiu uma vez, não necessariamente só teve uma relação afetiva, aí eu te mando uma mensagem e você não me responde. Isto em pesquisa científica já sentido como violência. A gente precisa acompanhar esse processo. 

Tem alguns filósofos que acreditam que a era do humanismo acabou mesmo. Que agora, essa coisa do neoliberalismo, tudo é capital, nada vale, vamos aí… É muito representativa na internet. Da distância do meu eu isso pode ser absurdamente disruptivo. É muito esquizofrênico porque quem me conhece de verdade é quem tá ali do meu lado, no meu cotidiano, que vive a minha dor e a minha angústia, todas as minhas questões. Mesmo sexualidade, ficar falando o tempo todo ‘transe, goze assim etc’. As pessoas reproduzem coisas que não sabem inclusive. Então, agora, toda mulher ejacula. Gente, não é isso. Tem poucos estudos sobre ejaculação feminina, poucos. Muitos autores que acham que existem dois fenômenos diferentes: um é o fenômeno da ejaculação que seria uma glândula específica que seria quase a próstata feminina e que algumas mulheres ejaculariam ali, que seria um líquido semelhante ao da próstata, sem espermatozoide. Outro tipo de ‘ejaculação’, que seria o ‘squirting’, com resquício de urina. E nem todas as mulheres ejaculam. Aí você pega uma pessoa que vende na internet o discurso da sexualidade e diz: ‘Vem aqui, vamos fazer uma massagem não sei o quê, você vai ejacular e a ejaculação é um ‘puta’ de um orgasmo’. Aonde isso tá escrito? Qual estudo e referência que tem? Então, veja que se cria muito a partir do que é vendável e quem trabalha com sexualidade tem de tomar muito cuidado porque a realidade não é essa só. Tem gente que tá transando muito, tem. Mas tem uma ‘porrada’ de gente, como a gente que não tá. Tem muita gente sem desejo, que não tem orgasmo, muito cara perdendo a ereção, muita gente triste porque o parceiro não tá desejando, sem gozar…Tem porque é vida real, é cotidiano”.             

Conheça mais sobre o trabalho da Ana Canosa: https://anacanosa.com.br.


almasculina é feito por:

Idealização, produção, roteiro, edição e apresentação: Paulo Azevedo (@pauloazevedooficial)

Trilha sonora original, gravação e mixagem: Conrado Goys (@conza01)

Identidade visual e arte: Glaura Santos (@glaurasantos)

Fotos e registro em vídeo: Vitor Vieira (@vitorvieirafotografia)

Colaboração: Suacompanhia (@suacompanhiateatro)

Realização: Comcultura (www.comcultura.com.br)


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