Com o articulador cultural Rodrigo França, 

com a participação especial da psicóloga e sexóloga Ana Canosa.

O episódio #13 do almasculina” traz uma conversa com o articulador cultural Rodrigo França (@rodrigofranca). Ele fala sobre sua trajetória, patriarcado, negritude, racismo, BBB… Sempre relacionados à sua visão sobre as masculinidades.

A psicóloga e sexóloga Ana Canosa (@anacanosa) é a nossa convidada no “Lugares Comuns”, quadro que dá voz a especialistas, gente que pesquisa e entende muito do assunto, explicando termos, conceitos e ampliando a nossa visão sobre tópicos mais específicos.

Ouça aqui o episódio na íntegra:

– Assista à gravação na íntegra com o Rodrigo França e o LUGARES COMUNS, com a Ana Canosa, no nosso canal no Youtube!

– Confira a nossa coluna semanal no blog!

ASPAS

“O Feminismo é Para Todo Mundo – Políticas Arrebatadoras”, de Bell Hooks

“Em momento algum acreditei que o movimento feminista devesse ser, e que fosse, um movimento de mulheres. No mais íntimo do meu ser, sabia que nunca teríamos um movimento feminista bem-sucedido se não conseguíssemos incentivar todo mundo, pessoas femininas e masculinas, mulheres e homens, meninas e meninos, a se aproximar do feminismo. (…) 

A maioria dos homens acha difícil ser patriarca. A maioria dos homens fica perturbada pelo ódio e pelo medo de mulher e pela violência de homens contra mulheres, até mesmo os homens que disseminam essa violência se sentem assim. Mas eles têm medo de abrir mão dos benefícios. Eles não têm certeza sobre o que vai acontecer com o mundo que eles já conhecem tão bem, se o patriarcado mudar. Então acham mais fácil apoiar passivamente a dominação masculina, mesmo quando sabem, no fundo, que estão errados. Repetidas vezes, homens me falam que não têm a menor ideia de o que feministas querem. Acredito neles. Acredito na capacidade que eles têm de mudar e crescer. E acredito que, se soubessem mais sobre o feminismo, não teriam mais medo dele, porque encontrariam no movimento feminista esperança para sua própria libertação das amarras do patriarcado. (…) Sem alterar nossa crítica feroz à dominação masculina, políticas feministas foram expandidas para incluir o reconhecimento de que o patriarcado tirou certos direitos dos homens, impondo neles uma identidade masculina sexista (…) Nós sabemos que masculinidade patriarcal incentiva homens a serem patologicamente narcisistas, infantis e psicologicamente dependentes dos privilégios (ainda que relativos) que recebem simplesmente porque nasceram homens. Muitos homens sentem que a vida será ameaçada se esses privilégios lhes forem tirados, já que não estruturaram qualquer identidade essencial significante. Por isso, o movimento dos homens tentou positivamente ensinar homens a se reconectar com sentimentos, a resgatar o garoto perdido e a nutrir a alma, o crescimento espiritual”.

ESCUTA AQUI

Rodrigo França indicou:

Os livros “Eles”, de Vagner Amaro (Ed. Malê); “Água de Barrela”, de Eliana Alves Cruz (Ed. Malê); e o seu próprio, “O Pequeno Príncipe Preto”, texto originalmente uma peça infantil que já rodou o Brasil.

– Paulo Azevedo indica:

– Documentário Eu não sou seu negro, Oscar de melhor documentário de 2017. Nele, o produtor Raoul Peck usa o livro inacabado de James Baldwin sobre o racismo nos EUA para examinar as questões raciais contemporâneas, com relatos sobre as vidas e assassinatos dos lideres ativistas Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr. Está disponível no Youtube e no Google Play. 

– Filme francês Chocolate, dirigido por Roschdy Zem, conta a extraordinária história do cubano Rafael Padilla, ex-escravo que se tornou o primeiro artista circense negro da França, uma celebridade do mundo do entretenimento na França da belle époque. 

– Documentário Becoming – Minha História, da Nadia Hallgreen, que acompanha Michelle Obama na turnê promocional por 34 cidades americanas da sua autobiografia com mesmo título, além trazer um retrospecto da sua vida e o período como 1ª dama negra dos EUA nos 8 anos na Casa Branca. Vale lembrar que, em menos de cinco meses, “Becoming” se tornou um dos livros de memórias mais vendidos da história.

LUGARES COMUNS com a psicóloga e sexóloga Ana Canosa

Paulo Azevedo: “Quando é que começou essa onda de articulações em torno das masculinidades. Você consegue traçar um pouco este contexto histórico?”

Ana Canosa: “O estudo da masculinidade vem pós-feminismo, né? Não teve jeito. A gente teve uma divisão histórica muito rígida de papéis de gênero, principalmente, no século 19. Não que antes não tivesse, mas no século 19 isso ficou posto. Então, você tinha: o ideal de amor romântico aparecendo como uma proposta de união – antes você tinha casamentos por conveniência. Então, aí agora, você pode casar com todo mundo, pode casar com quem ama, deseja pro resto da vida. Só que aí, homens são do espaço público, mulheres, do espaço privado. Essa divisão de papéis ficou muito rígida na sociedade burguesa do século 19 ocidental, europeu, etc… Que nós somos descendentes. Então, nessa construção de identidade masculina e feminina, a partir dessa divisão rígida, as identidades, tanto a masculinidade – porque a gente tinha talvez só uma e as outras eram muito relegadas à marginalidade, assim como a feminilidade. A gente tinha uma feminilidade possível de expressão, que nem eram nominadas e eram marginais. Então, se a gente pensar nessa masculinidade, que hoje se entende como masculinidade tóxica; e nessas feminilidades que se entendeu como passiva, castrada, que perdeu direitos, essas identidades eram construídas pela negação. Você crescia como um menino ou como uma menina, construindo o masculino, a partir do ‘não’: você não pode ser gay; não pode ser mulher – porque se você for mulher você vai ser menininha, então você vai ser fraco; não pode ser criança – porque ser chamado de criança quer morrer; e não pode ser brocha; eu ainda juntaria que você não pode ser corno. O menino vai crescendo – e eu tenho filho homem – tendo que castrar e negar a sua subjetividade porque nós estamos falando de afeto, amor, construção, insegurança que todos os meninos vão passar na sua infância, puberdade e adolescência. Então, o homem construiu, a partir do não, negando, não a partir da afirmação, tendo que castrar parte da sua emoção. As mulheres também foram negadas, óbvio: não pode trabalhar, não pode fazer isso, não pode ter desejo sexual, você tem que ser virgem ser isso, ser aquilo… Não pode, não pode, não pode. O problema para as mulheres foi mais grave, além de cortar a subjetividade feminina – não pode ser corajosa, forte, falar, se posicionar, ser assertiva… Foram negados direitos. Então, você não pode, de fato, trabalhar, votar etc. Elas foram duplamente negadas. Só que as mulheres lutaram pela afirmação. Então, as mulheres disseram: ‘Pera lá, vou votar, que isso, tá doido? Ei, eu quero me divorciar! Ei, eu não quero mais esse cara! Ei, eu quero transar! Ei, que quero ter orgasmo!’. Com as mulheres, saíram de uma identidade construída à base da negação da masculinidade, mas elas foram para a afirmação. Os homens não fizeram este caminho ainda ou estão fazendo agora”.   

Paulo Azevedo: “Estamos fazendo agora?”

Ana Canosa: “Eu espero. Então, eu acho que nos últimos anos caiu esta ficha de uma forma mais clara que as mulheres não querem mais esta reprodução de construção desse masculino que é negado na sua subjetividade que não sabe conversar, por exemplo. Na hora que tem um problema sexual, por exemplo, foge, finge que não está acontecendo nada. ‘Mas como não está acontecendo nada, meu filho, que isso? A gente não tá transando, você perdeu a ereção… Que isso?’. ‘Não sei o que tá acontecendo comigo’. ‘Não, mas o que que é? Você não me deseja mais?’. ‘Não, não sei… Não é isso’. Não sabe dizer, não sabe nominar. É falta de reconhecimento do próprio afeto e emoção. O que que eu tô sentindo? É raiva? É medo? É insegurança? Então, esta masculinidade vai ter que se afirmar, a partir da subjetividade que lhe foi negada”.

Paulo Azevedo: “Ampliar para as pluralidades. Mas-cu-li-ni-da-des”.
Ana Canosa: “E isso eu acho que é uma novidade assim, mais fortemente, nos últimos 5 anos, mas eu acho que nos últimos 10 anos os estudos da masculinidade começaram a fluir até, a partir de sintomatologias: depressão, aumento de suicídio em homens, de questões de burn out, enfim. Você começa a ver os homens adoecendo. Alguma coisa tá acontecendo: o que que é? Aí também isso contribui para os estudos da masculinidade ou das masculinidades”.

almasculina é feito por:

Idealização, produção, roteiro, edição e apresentação: Paulo Azevedo (@pauloazevedooficial)

Trilha sonora original, gravação e mixagem: Conrado Goys (@conza01)

Identidade visual e arte: Glaura Santos (@glaurasantos)

Fotos e registro em vídeo: Vitor Vieira (@vitorvieirafotografia)

Colaboração: Suacompanhia (@suacompanhiateatro)

Realização: Comcultura (www.comcultura.com.br)


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TAGS: #podcast #masculino #homen #negro #racismo

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