Com o montanhista e empreendedor Gustavo Ziller, com a participação especial da psicóloga e sexóloga Ana Canosa.

O episódio #14 do almasculina” traz uma conversa com o montanhista e empreendedor Gustavo Ziller (@gziller). Ele fala sobre paternidade, casamento, racismo, montanhismo… Sempre relacionados à sua visão sobre as masculinidades.

A psicóloga e sexóloga Ana Canosa (@anacanosa) é a nossa convidada no “Lugares Comuns”, quadro que dá voz a especialistas, gente que pesquisa e entende muito do assunto, explicando termos, conceitos e ampliando a nossa visão sobre tópicos mais específicos.

Ouça aqui o episódio na íntegra:

– Assista à gravação na íntegra com o Gustavo Ziller e o LUGARES COMUNS, com a Ana Canosa, no nosso canal no Youtube!
– Confira a nossa coluna semanal no nosso blog!

ASPAS

“Ideias para adiar o fim do mundo”, de Ailton Krenak “Devíamos admitir a natureza como uma imensa multidão de formas, incluindo cada pedaço de nós, que somos parte de tudo: 70% de água e um monte de outros materiais que nos compõem. E nós criamos essa abstração de unidade, o homem como medida das coisas, e saímos por aí atropelando tudo, num convencimento geral até que todos aceitem que existe uma humanidade com a qual se identificam, agindo no mundo à nossa disposição, pegando o que a gente quiser. Esse contato com outra possibilidade implica escutar, sentir, cheirar, inspirar, expirar aquelas camadas do que ficou fora da gente como “natureza”, mas que por alguma razão ainda se confunde com ela. Tem alguma coisa dessas camadas que é quase-humana: uma camada identificada por nós que está sumindo, que está sendo exterminada da interface de humanos muito-humanos. Os quase humanos são milhares de pessoas que insistem em ficar fora dessa dança civilizada, da técnica, do controle do planeta. E por dançar uma coreografia estranha são tirados de cena, por epidemias, pobreza, fome, violência dirigida.”

ESCUTA AQUI

Gustavo Ziller indicou:

– Filme “As Pontes de Madison” (1995), de Clinton Eastwood;

– Álbum “Nervos de Aço” (1973), de Paulinho da Viola;

– Álbum “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos” (2009), de Otto; 

– Perfil do Emicida e seu novo projeto, “Prisma”, no Youtube; 

– Paulo Azevedo indica 3 documentários, disponíveis na Netflix:

“Feel Rich: Health Is The New Wealth” (2017), produzido pelo Quincy Jones III, traz a conversa de músicos e atletas sobre suas práticas holísticas de bem-estar, que englobam corpo, mente e espírito, para a provocar a geração hip-hop a se tornar essa influência positiva. Isso porque a maior parte das crianças que crescem em regiões de baixa renda sofrem a ausência paterna. E como os rappers são tidos como figuras masculinas para elas, ganham uma influência exagerada em suas vidas. 

“Minimalistas: um documentário sobre as coisas importantes” (2016) retrata a jornada dos amigos de infância Joshua Millburn e Ryan Nicodemus durante a viagem de 10 meses pelos Estados Unidos para promover o livro “Minimalismo”. Este movimento prega que viver com menos posses dá liberdade, principalmente financeira, para se ter uma vida com mais propósito e focar no que realmente importa: passar mais tempo com a família e amigos ou buscar um emprego no qual é possível ter maior satisfação. Tudo isso veio 5 anos depois que eles largaram uma vida bem estabelecida, no qual ganhavam 50 mil dólares para viver com mais satisfação e menos coisas. 

“Mountain”(2017), da diretora Jennifer Peedom, que mesmo sem uma história, vale pela trilha e imagens exuberantes dos picos mais altos do mundo. E ainda traz a narração do ator Willem Dafoe. 

Episódio #222 do Podcast Mamilos com Emicida (sobre o álbum “AmarElo”). 

LUGARES COMUNS com a psicóloga e sexóloga Ana Canosa

Paulo Azevedo: “Qual seria a possibilidade de abordar a sexualidade para as crianças e adolescentes?”

Ana Canosa: “A educação sexual infantil ela parte da naturalidade com que você lida com todos os temas em relação ao sexo. Todos. Uma vez meu filho chegou pra mim, aos 4, 5 anos de idade, e falou: ‘Mãe, você sabia que tem mulher com pinto, mãe?”.  Eu falei: ‘Sabia, filho. Você tá falando de uma mulher assim, que tem mama, que tem um pênis… É isso?’. ‘É, mãe’. ‘Mas onde você viu isso?’. ‘Não, mãe, eu vi num sei quem da escola que falou’. ‘Então, dá-se o nome pra essa pessoa de travesti, normalmente. Acho que é disso que você tá falando’. ‘É, mãe?’. ‘É. São pessoas que, às vezes, não se satisfazem com o corpo que nasceram e elas vão colocando atributos de outro sexo’. ‘Tá bom. Vamos jogar bola?’. ‘Vamos’. É assim que funciona. Do meu filho aos 5 anos pra entender o que é transgêneros e que travesti é uma expressão transgêneros, eu não preciso explicar tudo. Mas eu parto da realidade dele. Eu não vou entrar numa discussão com ele se é mulher com pênis, no sentido semântico do termo da travesti… Não. Mas o que ele está me trazendo é uma figura. É uma figura de uma mulher com pênis, que se assemelha a uma figura de uma travesti. Tá bom. Eu vou dizer pra ele que existe e é isso. Ponto. Assim como existe homens gays, mulheres lésbicas… Então, é isso que acontece. Você vai trazendo pra criança a naturalidade das questões sexuais. Estão lá eles discutindo no meu almoço lá: ‘Ai, que fulaninha gosta de fulaninho…”. Eu falei: “É, e tem algum menino que gosta de menino?”. Aí, os dois olharam pra mim. Aí meu filho falou assim: ‘Mãe, nem todo mundo é homossexual!’. Porque eu faço tanto essa questão de introduzir essa possibilidade da homoafetividade que ele falou: “Mãe, nem todo é gay’.  

Paulo Azevedo: “E não necessariamente ele vai ser”.

Ana Canosa: “Meu filho, eu não tô dizendo que todo mundo. Eu só tô dizendo que se tem homens que desejam homens, eu tô perguntando se tem alguém que gosta de algum menino; e se tem alguma menina que gosta de alguma menina, ué?’. 

Paulo Azevedo: “Por que eu nunca nenhuma história de mãe falar assim pra uma menina: ‘Olha filha, aquela menininha tá te olhando…”.

Ana Canosa: “Pois é. Aí um olhou pro outro e falou assim: ‘E aí, tem algum menino que gosta de algum menino?’. Eles pararam pra pensar. ‘Não, mãe. Acho que não. Por enquanto a gente não sabe’. ‘Ah, tá bom’. O que eu queria fazer era introduzir na linguagem dele esta possibilidade. Não por ele. Mas por existir. Meu filho tem primo que é gay. E aí? Eu tenho que trazer isso pra ele com a maior naturalidade possível pra que ele possa ou se entender, eu não sei qual vai ser a orientação sexual dele. Ou entender os amigos e as pessoas ao lado, e que ele não entenda isso como uma coisa horrorosa. Porque eu não quero que ele entenda. Eu não quero. Eu quero que ele entenda a sexualidade da natureza das pessoas, que as pessoas têm o direito de expressarem a sua atração. Eu acho que esta educação do ser não sendo é a pior. E o Brasil é hors concours em fazer isso. Existe um documento de educação, do final do século XX, “Educação: Um Tesouro a Descobrir”, da UNESCO, que ele colocava 4 tópicos de aprendizado como importantes para uma educação saudável e efetiva: aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a conviver com os outros; e aprender a ser. Então, eram 4 tópicos de educação. No Brasil, é assim: quando a gente vai tratar de educações sexuais não muito aceitas ou de identidades não-binárias o discurso é… ‘Ai, eu até… Você pode até ser gay, mas não pode andar de mãos dadas e beijar na rua, tá?’. Isso é ser não sendo. Desculpa, não gosta? Aguenta, vai fazer terapia, trabalhe-se. Porque a gente não pode negar expressões afetivas de ninguém. Eu não posso dizer pra você que eu aceito você como gay e dizer que eu não que você se beije na rua. Não existe essa possibilidade porque isso é castrar a metade de você, é a sua afetividade. O que que isso? É ser não sendo!”.

Paulo Azevedo: “Você tá falando e eu tô pensando no número de casos de violência”.

Ana Canosa: “Total. Isso começa dentro da família. A gente vai construindo pessoas com a autoestima baixa, inseguras, que não sabem se colocar no mundo porque o todo nós estamos dizendo pra elas: ‘seja não sendo’. Tanto na questão da sexualidade quanto na questão da sua própria identidade, da sua expressão comunicativa, o que você pensa, o que você quer falar, como é que você quer se colocar no mundo… Não dá, né? Pra mim, isso é o pior. A educação brasileira é assim ainda. Principalmente, nestas questões da sexualidade. A psicanálise já fala que o impulso da sexualidade ou a pulsão sexual é pulsão libidinal. Então, ela não tá a serviço só da genitalidade. Ela é a sua maneira de se colocar no mundo. É uma pulsão criativa. Ela faz parte da pulsão de vida. Então, quando você fala da dimensão do prazer é muito grande. A dimensão da pulsão sexual é muito maior, da excitação. Você não fica excitado só com cena sexual. Você fica excitado, entusiasmado. Essa excitação vira o entusiasmo por alguma coisa, uma coisa criativa. Então, a sexualidade é também vai envolver outros aspectos. Você não precisa fazer sexo genital pra ser uma pessoa sexualmente tranquila ou tendo a sexualidade no seu projeto de vida”.


almasculina é feito por:

Idealização, roteiro, edição e apresentação: Paulo Azevedo (@pauloazevedooficial)

Trilha sonora original, e mixagem: Conrado Goys (@conza01)

Identidade visual e arte: Glaura Santos (@glaurasantos)

Fotos: Vitor Vieira (@vitorvieirafotografia)Realização: Comcultura (www.comcultura.com.br)


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TAGS: #podcast #masculino #homem #paternidade #racismo

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