Com a designer de interativos, violonista e astróloga Márcia Brandão e a participação especial da psicóloga e sexóloga Ana Canosa.

O episódio #21 do almasculina” traz uma conversa com a designer de interativos, violonista e astróloga Márcia Brandão (@astrologia_reflexoes_visoes) fala sobre sexualidade, astrologia, a situação mundial e o fim do ciclo materialista, desigualdade, perspectivas… Sempre relacionados à sua visão sobre as masculinidades.

A psicóloga e sexóloga Ana Canosa (@anacanosa) é a nossa convidada no “Lugares Comuns”, quadro que dá voz a especialistas, gente que pesquisa e entende muito do assunto, explicando termos, conceitos e ampliando a nossa visão sobre tópicos mais específicos.

Ouça aqui o episódio na íntegra:

– Assista à gravação na íntegra e o LUGARES COMUNS, com a Ana Canosa, no nosso canal no Youtube!

– Confira a nossa coluna quinzenal no nosso blog!

ASPAS

“Políticas do Sexo”, de Gayle Rubin

“Para alguns, a sexualidade pode parecer um tema sem importância, uma dispersão frívola de problemas mais graves, como pobreza, guerra, doença, racismo, fome e destruição nuclear. Mas é justamente em épocas como esta, quando vivemos com a possibilidade de enfrentar uma aniquilação inimaginável, que as pessoas tendem a sair perigosamente dos eixos no que diz respeito à sexualidade. Os conflitos contemporâneos ligados a valores sexuais e condutas eróticas têm muito em comum com disputas religiosas de séculos anteriores. Eles adquirem imenso peso simbólico. As discussões relacionadas ao comportamento sexual muitas vezes se tornam um veículo para deslocar angústias sociais e descarregar as intensidades emocionais concomitantes a elas. Consequentemente, a sexualidade deveria ser tratada com especial cuidado em tempos de grande estresse social.

O domínio da sexualidade também tem uma política interna, desigualdades e modos de opressão próprios. Assim como acontece com outros aspectos do comportamento humano, as formas institucionais concretas da sexualidade em determinado tempo e lugar são produto da atividade humana. Elas são permeadas por conflitos de interesse e manobras políticas, tanto deliberadas quanto incidentais. Nesse sentido, o sexo é sempre político. Mas há também períodos históricos em que as discussões sobre a sexualidade são mais claramente controvertidas e mais abertamente politizadas. Nesses períodos, o domínio da vida erótica é com efeito renegociado”.

ESCUTA AQUI

Márcia Brandão indicou:

Filme “Priscilla, A Rainha do Deserto” (1994), de Stephan Elliot:

As drag queens Anthony (Hugo Weaving) e Adam (Guy Pearce) e a transexual Bernadette (Terence Stamp) são contratadas para realizar um show em Alice Springs, uma cidade remota localizada no deserto australiano. Eles partem de Sydney a bordo de Priscilla, um ônibus, tendo a companhia de Bob (Bill Hunter). Só que no caminho eles descobrem que quem os contratou foi a esposa de Anthony.

Filme “Madame Satã” (2007), de Karim Ainouz:

Nas favelas do Rio da década de 1930, João Francisco dos Santos é várias coisas – filho de escravos, ex-presidiário, bandido, homossexual e patriarca de um bando de párias. João se expressa no palco de um cabaré como o travesti Madame Satã.

Filme “Minha Vida em Cor-de-Rosa” (1997), de Alain Berliner:

Durante um churrasco entre vizinhos, Ludovic, 7 anos, escandaliza todos ao aparecer vestido como menina. É uma situação embaraçosa para os pais, novos naquele condomínio chique ao qual querem se integrar. Enquanto Ludovic continua a viver como menina, seus pais custam a aceitar a diferença.

Livro “Orlando”, de Virginia Wolf:

Nascido no seio de uma família de boa posição em plena Inglaterra elisabetana, Orlando acorda com um corpo feminino durante uma viagem à Turquia. Como é dotado de imortalidade, sua trajetória então atravessa mais de três séculos, ultrapassando as fronteiras físicas e emocionais entre os gêneros masculino e feminino. Suas ambiguidades, temores, esperanças, reflexões – tudo é observado com inteligência e sensibilidade nesta narrativa que, publicada originalmente em 1928, permanece como uma das mais fecundas discussões sobre a sexualidade humana. A um só tempo cômico e lírico, Orlando mostra o trajeto do personagem entre embates com armas brancas, acalorados debates filosóficos no século XVIII, a maternidade e até mesmo num volante a bordo de um automóvel. Tudo isso vem costurado pela prosa luminosa de Woolf nesta que é uma das grandes declarações de amor da literatura ocidental. Esta edição inclui introdução e notas de Sandra Gilbert, especialista em estudos de gênero e literatura inglesa, e uma brilhante crônica-ensaio de Paulo Mendes Campos, um dos grandes leitores brasileiros da obra de Virginia Woolf.

Livro “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa:

Publicado originalmente em 1956, Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, revolucionou o cânone brasileiro e segue despertando o interesse de renovadas gerações de leitores. Ao atribuir ao sertão mineiro sua dimensão universal, a obra é um mergulho profundo na alma humana, capaz de retratar o amor, o sofrimento, a força, a violência e a alegria.

Álbum “Religar”, de Leo Cavalcanti;

Músico e compositor Marcelo Jeneci (convidado do nosso episódio #17);

– Paulo Azevedo indicou:

– Plataforma “46º Festival Sesc Melhores Filmes”:

O Festival Sesc Melhores Filmes está em sua 46ª edição, sendo o mais antigo e um dos mais tradicionais festivais de cinema de São Paulo. O festival oferece ao público a oportunidade de ver ou rever o que passou de mais significativo pelas telas da cidade no ano anterior ao evento (cerca de 450 filmes participaram!). Os filmes são escolhidos democraticamente por meio de votação, esta dividida entre público e júri especializado, composto por críticos e jornalistas de todo o Brasil.

Disponível na Plataforma SESC Digital BETA, gratuitamente. Títulos premiados como: “Divinas Divas” (2017), de Leandra Leal, (indicado no episódio #15); “A Caça” (2013), de Thomas Vinterberg; “Dheepan – O Refúgio”, (2015), de Jacques Audiard; e “Border” (2018), de Ali Abbasi; entre outros.

– Série RuPaul’s Secret Celebrity Drag Race:

É um subproduto do reality de competição de quatro episódios de RuPaul’s Drag Race. Em cada episódio, três celebridades passarão por uma transformação drag, orientada por ex-participantes do Drag Race, e participarão de segmentos tradicionais da história do reality, competindo para ser a primeira drag superstar de celebridades e ganhar um prêmio em dinheiro por sua instituição de caridade escolhida. E pra quem quer entender, de fato, e desfazer de preconceitos sobre essa arte múltipla, confira o episódio #15 do almasculina, com a drag queen, youtuber e professor Rita Von Hunty. Disponível na Netflix.

E a palestra de Márcia Brandão, citada em vários momentos da conversa: “2020 o ano mais impactante do Século XXI”.

LUGARES COMUNS com a psicóloga e sexóloga Ana Canosa

Paulo Azevedo: “Ana, eu sei que você trabalha, coordena um curso de pós-graduação numa instituição religiosa. Tem alguma novidade entre Sexualidade e religião, mais recente, alguma coisa que foi revista e repensada sobre sexualidade dentro das religiões ou dentro da espiritualidade?”

Ana Canosa: “Eu acho que há um movimento. Eu falo pela nossa realidade. Eu coordeno uma pós-graduação e o outro coordenador é um padre católico, que foi meu colega de pós-graduação, em 1995. Eu entrei na sala de aula, em 1995, eu era uma psicóloga totalmente brigada com a igreja católica. Eu era católica por herança familiar. E quando fui fazer psicologia, daí briguei de vez: ‘Como essa manutenção do poder, da mediação, não combina com o sentir e tal”. Eu olhava praquele cara e perguntava: ‘O que um padre está fazendo no curso de educação sexual?’. Eu não conseguia entender. Me aproximei dele e nós viramos os melhores amigos. Ele é o meu amor fraterno, de toda a vida. E ele me fez compreender um pouco e respeitar os dogmas católicos, inclusive. Porque ele é um cara que luta dentro da igreja para que, pelo menos, a missão salesiana, porque ele é da missão salesiana com jovens… Existem duas coisas: existem os dogmas, que é o que eu pressuponho como exercício da sexualidade para a população que assume esta fé. Só que isso é do plano do divino, num é do plano real, no sentido de que pra eu chegar ali é um processo e nem todo mundo vai chegar. O que eu vou fazer com essas pessoas que não chegam? Eu vou recusar? Eu dizer preconceituosamente que elas não podem frequentar a Igreja? Então, ele luta muito por essa abertura, dentro da missão salesiana. E a gente levou o curso para dentro uma instituição católica. Embora o curso seja alicerçado na pedagogia, ele não é confessional. Então, ele não tem que ser de uma religião ou de outra. Mas ele, de alguma maneira, é dado dentro de uma instituição católica. Embora, eu não concorde com determinados pressupostos, eu respeito hoje em dia. Então, quando a ministra Damaris, por exemplo, propõe abstinência sexual como prevenção de gravidez para a população brasileira, eu vou dizer assim: ‘OK’. Abstinência sexual é um tipo, um comportamento de prevenção. Algumas pessoas, inclusive, motivadas por sua fé religiosa e pelos dogmas da sua religião podem se enquadrar nisso. Só que o nosso país é múltiplo, vivemos numa democracia. E é laico. Se eu quero atingir uma população em prevenir gravidez eu não posso só propor abstinência. Então, esse é o caminho que a gente tem que fazer na linguagem da sexualidade, mediada pela religião ou espiritualidade. Embora, eu possa ter opiniões muito minhas sobre determinados valores, dogmas, das religiões sobre o exercício da sexualidade alheia, eu respeito. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Eu não posso olhar pra população, a partir da minha percepção individual”.

Paulo Azevedo: “E querer impor de alguma maneira”.


Ana Canosa: “A Igreja Católica, veja o Papa Francisco falando, por exemplo: ele declarou que ele concorda que tem que ter educação sexual nas escolas porque as famílias não dão conta. E eu acho que as famílias não dão conta mesmo.  Só que essa educação tem que ser feita por uma pessoa especializada. Só que a gente vê a Igreja Católica, de alguma maneira, se pronunciando num viés muito mais realista, distante daquilo do dogma, da sua proposta. Eu posso até propor, posso até achar que é melhor mesmo ser abstinente até o casamento e só transar depois do casamento, eu posso achar. Eu, Ana, posso achar isso careta. Mas o outro pode achar que não. Beleza! Só que isso é uma proposta que boa parte da população nessa realidade que nós temos não vai conseguir porque pensam de outra maneira, estão vivendo o prazer, não veem o sexo alicerçado exatamente no casamento e numa relação monogâmica. Tudo bem!”

Paulo Azevedo: “É complexo, né?”

Ana Canosa: “Eu o vejo fazendo um movimento interessante. E vejo algumas outras religiões cristãs, fazendo o movimento oposto. Teve uma época que eu achava que as religiões não deveriam se meter no comportamento sexual das pessoas. Pra que que vai reger isso? Só que o comportamento sexual faz parte do seu estar no mundo. E as religiões vão reger sobre seu estar no mundo. É quase que natural reger sobre a sexualidade também, diante da proposta espiritual. Você vai ter religiões que vão propor papéis de gênero completamente separados, submissão, vão reger sobre a virgindade, enfim… Eu sinto que faz meio parte do processo, sabe? Infelizmente, embora eu não quisesse. Mas o fato de eu reger ou propor, não significa que não fazer exatamente aquilo, me exclua do processo espiritual ou da minha fé. E aí, me entristece demais ter uma ministra que faz esse tipo de proposta totalmente guiada pela própria percepção num cargo público. Eu me entristeço. Falo: ‘Gente, não dá”.

Paulo Azevedo: “É essa a solução apontada pra milhões de pessoas”.

Ana Canosa: É tirar a cartilha trans… Porque? É tirar a gênero do documento… A troco do que? Agora, uma coisa que eu quero dizer pra quem nos escuta que trabalha, que é educador, inclusive, nós temos leis que legitimam o trabalho de educação e sexualidade nas escolas. Se você pegar o ECA, o estatuto da juventude, tá lá escrito: que é obrigação da escola trabalhar, formar os profissionais, em sexualidade, inclusive. O Brasil é signatário de vários documentos internacionais que propõe como meta: reforçar o papel da mulher, trabalhar a equidade de gênero, assegurar o direito de gênero e orientação sexual de todo mundo. Então, se um professor ou uma escola quiser trabalhar, ela tem amparo legal. Não se recolham e não se acovardam diante do que vocês escutam falar. Vão em busca porque a gente tem amparo legal. É uma questão de querer.

Paulo Azevedo: “Buscar informação”.

Ana Canosa: “Não é porque não está escrito a palavra gênero ou orientação na base nacional curricular, que você não pode ou não precisa trabalhar. Você pode. Só não tá escrito, só tiraram a palavra. É muito mais uma questão de iniciativa e de vontade, de entender a sexualidade como uma coisa importante, de construir um mundo mais afetivo, de prazer porque sexualidade é prazer. Não vem negar essa parte. A escola vai: ‘Ah, vamos falar sobre prevenção de gravidez e infecções sexualmente transmissíveis’. Ai, mostra aquele monte de ‘pintos perebentos’ para os adolescentes que só querem beijar!”

Paulo Azevedo: “Começa assim?!”

Ana Canosa: “Começa assim! A pessoa olha pra você: ‘Meo, não vou escutar essa mulher’. Agora, chega você numa classe de nono ano, e fala:’ Gente, vamos falar sobre resposta sexual, desejo e excitação’. Pronto! Tudo mundo se liga em você! ‘Ejaculacão precoce: o que é?’ Pronto!”

Paulo Azevedo: “Didática, por favor, né?”

Ana Canosa: “Cara! Eles olham pra você: ‘É com essa mulher que eu vou segurar!’ Segura na minha mão, vem cá! Eles se interessam porque aquilo é da realidade.

Paulo Azevedo: “Porque a gente nunca teve isso. Eu nunca tive – eu não sei o Conrado, o Vitor e a Glaura, eu nunca tive isso! Sabe, toda a conversa sobre sexo e sexualidade. Também tive uma herança católica xiita até os 19, 20 anos. E depois fui deparar com todas essas questões. Peraí, eu tenho um corpo! Que corpo que é esse, onde tá meu lugar de prazer, além do trabalho e do dever? Ana, eu fico com dó da gente”.

Ana Canosa: “Eu também fico! Eu morro de pena.”

Paulo Azevedo: “De todo mundo, não só dos homens porque ir pra um lugar onde não haja reflexão, conhecimento, troca… É isso que o almasculina se propõe. Sabe? Trazer especialistas, pessoas que vão abordar as suas vivências, sem necessariamente serem especialistas nisso também pra gente abrir algum espaço, furar alguma cratera!”.

almasculina é feito por:

Idealização, roteiro, edição e apresentação: Paulo Azevedo (@pauloazevedooficial)

Trilha sonora original, e mixagem: Conrado Goys (@conza01)

Identidade visual e arte: Glaura Santos (@glaurasantos)

Fotos: Vitor Vieira (@vitorvieirafotografia)

Realização: Comcultura.

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