Neste mês, enquanto retomamos o fôlego para a nova temporada, teremos episódios semanais com os melhores momentos de 2020, divididos em quatro partes. No mínimo, você vai conhecer um pouco de tudo que vivenciamos juntos ano passado nessa breve retrospectiva. E, quem sabe, querer escutar os episódios na íntegra que ainda não ouviu ou relembrar aqueles que mais curtiu!

Nesta primeira parte, você confere a seleção de alguns do melhores momentos das conversas com os nossos convidados dos episódios #11 ao #14: SOLTOS S.A., ZÉ MIGUEL WISNIK, RODRIGO FRANÇA e GUSTAVO ZILLER.

E relembramos também a participação da psicóloga e sexóloga ANA CANOSA é a nossa convidada no “Lugares Comuns”, quadro que dá voz a especialistas, gente que pesquisa e entende muito do assunto, explicando termos, conceitos e ampliando a nossa visão sobre tópicos mais específicos. Está imperdível!

Ouça aqui o episódio na íntegra:

– Confira a nossa coluna no nosso blog! 

ASPAS

– “O Feminismo é Para Todo Mundo – Políticas Arrebatadoras”, de Bell Hooks:

“Em momento algum acreditei que o movimento feminista devesse ser, e que fosse, um movimento de mulheres. No mais íntimo do meu ser, sabia que nunca teríamos um movimento feminista bem-sucedido se não conseguíssemos incentivar todo mundo, pessoas femininas e masculinas, mulheres e homens, meninas e meninos, a se aproximar do feminismo. (…) 

A maioria dos homens acha difícil ser patriarca. A maioria dos homens fica perturbada pelo ódio e pelo medo de mulher e pela violência de homens contra mulheres, até mesmo os homens que disseminam essa violência se sentem assim. Mas eles têm medo de abrir mão dos benefícios. Eles não têm certeza sobre o que vai acontecer com o mundo que eles já conhecem tão bem, se o patriarcado mudar. Então acham mais fácil apoiar passivamente a dominação masculina, mesmo quando sabem, no fundo, que estão errados. Repetidas vezes, homens me falam que não têm a menor ideia de o que feministas querem. Acredito neles. Acredito na capacidade que eles têm de mudar e crescer. E acredito que, se soubessem mais sobre o feminismo, não teriam mais medo dele, porque encontrariam no movimento feminista esperança para sua própria libertação das amarras do patriarcado. (…) Sem alterar nossa crítica feroz à dominação masculina, políticas feministas foram expandidas para incluir o reconhecimento de que o patriarcado tirou certos direitos dos homens, impondo neles uma identidade masculina sexista (…) Nós sabemos que masculinidade patriarcal incentiva homens a serem patologicamente narcisistas, infantis e psicologicamente dependentes dos privilégios (ainda que relativos) que recebem simplesmente porque nasceram homens. Muitos homens sentem que a vida será ameaçada se esses privilégios lhes forem tirados, já que não estruturaram qualquer identidade essencial significante. Por isso, o movimento dos homens tentou positivamente ensinar homens a se reconectar com sentimentos, a resgatar o garoto perdido e a nutrir a alma, o crescimento espiritual”.

LUGARES COMUNS com a psicóloga e sexóloga Ana Canosa

Paulo Azevedo: “Qual seria a possibilidade de abordar a sexualidade para as crianças e adolescentes?”

Ana Canosa: “A educação sexual infantil ela parte da naturalidade com que você lida com todos os temas em relação ao sexo. Todos. Uma vez meu filho chegou pra mim, aos 4, 5 anos de idade, e falou: ‘Mãe, você sabia que tem mulher com pinto, mãe?”.  Eu falei: ‘Sabia, filho. Você tá falando de uma mulher assim, que tem mama, que tem um pênis… É isso?’. ‘É, mãe’. ‘Mas onde você viu isso?’. ‘Não, mãe, eu vi num sei quem da escola que falou’. ‘Então, dá-se o nome pra essa pessoa de travesti, normalmente. Acho que é disso que você tá falando’. ‘É, mãe?’. ‘É. São pessoas que, às vezes, não se satisfazem com o corpo que nasceram e elas vão colocando atributos de outro sexo’. ‘Tá bom. Vamos jogar bola?’. ‘Vamos’. É assim que funciona. Do meu filho aos 5 anos pra entender o que é transgêneros e que travesti é uma expressão transgêneros, eu não preciso explicar tudo. Mas eu parto da realidade dele. Eu não vou entrar numa discussão com ele se é mulher com pênis, no sentido semântico do termo da travesti… Não. Mas o que ele está me trazendo é uma figura. É uma figura de uma mulher com pênis, que se assemelha a uma figura de uma travesti. Tá bom. Eu vou dizer pra ele que existe e é isso. Ponto. Assim como existe homens gays, mulheres lésbicas… Então, é isso que acontece. Você vai trazendo pra criança a naturalidade das questões sexuais. Estão lá eles discutindo no meu almoço lá: ‘Ai, que fulaninha gosta de fulaninho…”. Eu falei: “É, e tem algum menino que gosta de menino?”. Aí, os dois olharam pra mim. Aí meu filho falou assim: ‘Mãe, nem todo mundo é homossexual!’. Porque eu faço tanto essa questão de introduzir essa possibilidade da homoafetividade que ele falou: “Mãe, nem todo é gay’.  

Paulo Azevedo: “E não necessariamente ele vai ser”.

Ana Canosa: “Meu filho, eu não tô dizendo que todo mundo. Eu só tô dizendo que se tem homens que desejam homens, eu tô perguntando se tem alguém que gosta de algum menino; e se tem alguma menina que gosta de alguma menina, ué?’. 

Paulo Azevedo: “Por que eu nunca nenhuma história de mãe falar assim pra uma menina: ‘Olha filha, aquela menininha tá te olhando…”.

Ana Canosa: “Pois é. Aí um olhou pro outro e falou assim: ‘E aí, tem algum menino que gosta de algum menino?’. Eles pararam pra pensar. ‘Não, mãe. Acho que não. Por enquanto a gente não sabe’. ‘Ah, tá bom’. O que eu queria fazer era introduzir na linguagem dele esta possibilidade. Não por ele. Mas por existir. Meu filho tem primo que é gay. E aí? Eu tenho que trazer isso pra ele com a maior naturalidade possível pra que ele possa ou se entender, eu não sei qual vai ser a orientação sexual dele. Ou entender os amigos e as pessoas ao lado, e que ele não entenda isso como uma coisa horrorosa. Porque eu não quero que ele entenda. Eu não quero. Eu quero que ele entenda a sexualidade da natureza das pessoas, que as pessoas têm o direito de expressarem a sua atração. Eu acho que esta educação do ser não sendo é a pior. E o Brasil é hors concours em fazer isso. Existe um documento de educação, do final do século XX, “Educação: Um Tesouro a Descobrir”, da UNESCO, que ele colocava 4 tópicos de aprendizado como importantes para uma educação saudável e efetiva: aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a conviver com os outros; e aprender a ser. Então, eram 4 tópicos de educação. No Brasil, é assim: quando a gente vai tratar de educações sexuais não muito aceitas ou de identidades não-binárias o discurso é… ‘Ai, eu até… Você pode até ser gay, mas não pode andar de mãos dadas e beijar na rua, tá?’. Isso é ser não sendo. Desculpa, não gosta? Aguenta, vai fazer terapia, trabalhe-se. Porque a gente não pode negar expressões afetivas de ninguém. Eu não posso dizer pra você que eu aceito você como gay e dizer que eu não que você se beije na rua. Não existe essa possibilidade porque isso é castrar a metade de você, é a sua afetividade. O que que isso? É ser não sendo!”.

Paulo Azevedo: “Você tá falando e eu tô pensando no número de casos de violência”.

Ana Canosa: “Total. Isso começa dentro da família. A gente vai construindo pessoas com a autoestima baixa, inseguras, que não sabem se colocar no mundo porque o todo nós estamos dizendo pra elas: ‘seja não sendo’. Tanto na questão da sexualidade quanto na questão da sua própria identidade, da sua expressão comunicativa, o que você pensa, o que você quer falar, como é que você quer se colocar no mundo… Não dá, né? Pra mim, isso é o pior. A educação brasileira é assim ainda. Principalmente, nestas questões da sexualidade. A psicanálise já fala que o impulso da sexualidade ou a pulsão sexual é pulsão libidinal. Então, ela não tá a serviço só da genitalidade. Ela é a sua maneira de se colocar no mundo. É uma pulsão criativa. Ela faz parte da pulsão de vida. Então, quando você fala da dimensão do prazer é muito grande. A dimensão da pulsão sexual é muito maior, da excitação. Você não fica excitado só com cena sexual. Você fica excitado, entusiasmado. Essa excitação vira o entusiasmo por alguma coisa, uma coisa criativa. Então, a sexualidade é também vai envolver outros aspectos. Você não precisa fazer sexo genital pra ser uma pessoa sexualmente tranquila ou tendo a sexualidade no seu projeto de vida”.

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Idealização, roteiro, edição e apresentação: Paulo Azevedo (@pauloazevedooficial).

Trilha sonora original e mixagem: Conrado Goys (@conza01).

Identidade visual e arte: Glaura Santos (@glaurasantos).

Fotos: Vitor Vieira (@vitorvieirafotografia).

Realização: Comcultura (www.comcultura.com.br).

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