Com o diretor artístico do Grupo Corpo, Paulo Pederneiras, com a participação especial da psicanalista Malvina Muszkat.

O episódio #3 do almasculina” traz uma conversa com o diretor artístico do Grupo Corpo, Paulo Pederneiras (@grupocorpo), sobre sua trajetória e a fundação de umas das companhias artísticas mais importantes do país, o lugar do corpo na cultura brasileira e os conflitos com a religião… Sempre relacionados à sua visão sobre as masculinidades.

A psicanalista Malvina Muszkat (@malvinamuszkat) é a nossa convidada no “Lugares Comuns”, quadro que dá voz a especialistas, gente que pesquisa e entende muito do assunto, explicando termos, conceitos e ampliando a nossa visão sobre tópicos mais específicos.

Ouça aqui o episódio na íntegra:

ASPAS

A coragem de ser imperfeito, de Brené Brown 

“Eis o padrão doloroso que emergiu da minha pesquisa com os homens: nós, as mulheres, pedimos a eles que sejam transparentes, suplicamos que nos deixem entrar e imploramos que nos digam quando estão com medo, mas a verdade é que a maioria das mulheres não segura essa barra. Nos momentos em que os homens se mostram verdadeiramente vulneráveis, a maioria de nós entra em pânico – que se expressa como indignação e desprezo. Mas os homens são muito inteligentes. Eles conhecem os risos e percebem em nossos olhos quando estamos pensando: ‘Vamos lá, recomponha-se! Aja feito um homem’. Assim como as mulheres, os homens são aprisionados em seus próprios dilemas insolúveis. Nos últimos anos, com a recessão na economia americana, comecei a ver que, depois que a escassez tomou conta da nossa sociedade, a mensagem não é apenas ‘Não seja fraco’. Agora também inclui: ‘É melhor você ser grande e todo-poderoso”. 

ESCUTA AQUI

– Paulo Pederneiras indicou o último filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar “Dor e Glória” e as obras dos autores Philip Roth, Amós Oz e J.M. Coetzee.

Paulo Azevedo indicou o canal do Grupo Corpo no Spotify, com as trilhas criadas especialmente para a companhia. Ainda indicou a palestra Brené Brown, que é uma pesquisadora sobre o tema da vulnerabilidade, chamada “The Call to Courage”, em português, “O chamado para a coragem”, disponível no Netflix. Vale muito a pena!

– Pra conhecer mais sobre o trabalho do Grupo Corpo, acesse:

https://www.youtube.com/user/GrupoCorpoOficial

http://www.grupocorpo.com.br/

https://amigosdocorpo.com.br/

LUGARES COMUNS com Malvina Muszkat 

“Gênero foi uma palavra que veio da gramática porque você usa gênero na gramática: masculino, feminino e neutro. Cada palavra é masculina, feminina ou neutra. E o americano adotou essa palavra que depois foi trabalhada pelos grupos feministas pra definir a sexualidade, ou melhor, o desejo sexual, qual é o objeto do meu desejo. Quer dizer, o que eu sou nesta sociedade e qual é a parte do meu desejo. Quer dizer, a palavra não desperta nenhum tabu, mas o que acontece é que nos vivemos numa sociedade onde ainda a religião tem uma força muito grande, não é? E do ponto de vista religioso sair do corpo e inventar outra coisa a respeito do mesmo corpo, não é? É uma coisa ‘terrorifíca’. Eu acho que nós temos que começar a pensar o seguinte: nós somos muito onipotentes e ao mesmo tempo ingênuos. Nós acreditamos que somos os donos das nossas mentes e dos nossos corações. E não somos. E por que não somos? Porque os seres humanos do ponto de vista biológico somos os mais frágeis que estão no mundo ao nascer. Então, um bebê além dos 9 meses de gestação, ele tem uma fase que até o Jung chama de extrauterina que vai até os 3 anos de idade. Ele falou que é um, mas nenhuma bebê sai por aí pra pegar um copo d’água, não é? Então, essa dependência que você em relação a alguém que vai atender as suas necessidades básicas, que a gente chama de mãe, mas pode ser qualquer outra pessoa, ela é afetiva antes de mais nada porque um bebê que não tiver um ser afetivo atendendo ele, ele morre, tem pesquisas a respeito disso, ele adoece e morre. E esse mesmo ser vai ensinar pra ele o mundo. Então, isso faz muito dependente. Isso nos leva a ter que absorver num primeiro momento é ter mesmo porque não tem outra saída, né? Eu absorvo aquilo que me é definido como certo, errado, o que eu sou, o que eu não sou, o que eu posso fazer, o que eu não posso fazer, dentro dessa cultura onde eu estou inserido. Enfim, são coisas, desde as mínimas até as mais importantes, que é quem eu sou. Então, essa questão do gênero, ela está relacionada exatamente a isso porque ao nascer eu tenho um sexo: eu tenho uma vagina ou tenho um pênis, tem alguns casos que tem os dois, mas não é o caso pra gente discutir agora. Então, segundo o meu corpo, que é um corpo biológico, eu sou, junto com a mamadeira, junto com aquele leitinho que vai entrando, vai entrando também aquilo que eu devo ser. Então, eu sou aquilo que eu devo ser. Eu começo a ser aquilo que eu devo ser. E aquilo que eu devo ser, que me é introjetado, vai criando a minha subjetividade é aquilo que a gente chama de gênero. Porque seu eu nasci homem, mulher estamos falando do corpo biológico. Mas o que eu vou ser com este corpo define o meu gênero. Então, se o corpo está ligado ao biológico, o gênero está ligado ao social e ao cultural”. 

“Você tem uma espécie de domesticação nos processos de socialização, de aculturação. Até um certo momento da sua vida você não tem muitas escolhas. Se você quer ser aceito pela sociedade tem que aceitar aqueles símbolos, aqueles princípios, aquelas ideias. Tanto que você vê muitos jovens, praticando suicídio porque eles não cabem nos preceitos que eles foram definidos. Mas se eu fosse procurar um fator comum do que é virar homem, tornar-se homem, eu diria que é a castração dos afetos. Porque, na verdade, você vê a teoria psicanalítica pra quem conhece fala da castração do pênis etc. O que é a castração do pênis? A castração do pênis, simbolicamente, é não poder exercer a sua masculinidade. Agora, o que é a masculinidade pra essa visão? É ser forte. É não ter sofrimento ou não expor o sofrimento. É não expor sofrimento, nem chorar, nem se emociona. Então, o que se espera daquele sujeito pra ser um homem? Que ele seja uma pessoa fria, que ele não exponha sentimentos que o igualem aos sentimentos de uma mulher porque aí tem todo o caráter da homofobia que é que faz de um homem um homem. Então, porque que não pode chorar? Porque as mulheres fazem isso. Então, a identidade masculina é uma identidade muito frágil porque ela é construída em cima de uma mentir, ela é construída em cima de uma ideia de que homem não sofre, o homem é forte, ele sabe como resolver os problemas dele, ele sabe defender a família, dele quer dizer, eu acho que quando começou a humanidade o homem saia e caçava, ele tinha que usar os músculos, tinha que ser forte mesmo porque a mulher estava parindo e tendo que cuidar da cria. Mas peraí: o fato de você ter músculos, uma capacidade corporal com mais força não quer dizer que você não tenha o direito de não ter sofrimento nenhum. Então, o que você hoje, alias, não é hoje, as pesquisas estão voltadas pra isso: que os homens são os que ficam mais doentes, morrem mais cedo, se suicidam mais justamente porque um menino, se ele estiver sofrendo, com vontade de chorar, vai ser muito mal visto pela própria família e, principalmente, pelo pai que vai se sentir envergonhado e até as mães, viu? Eu tenho trabalhado muito com mães de meninos e elas tem muita dificuldade de aceitar a depressão de um filho, por exemplo. É muito fácil aceitar a depressão de uma menina, que chora, põe ela no colo, coça as costas, aquela coisa toda. E o menino se estiver deprimido tem que engolir aquela emoção. Então, qual é o único sentimento que vai sobrar pra ele: a raiva. Então, ele vai ter que transformar aquele sofrimento numa reação raivosa e muito possivelmente violenta”.



almasculina é feito por:

Idealização, produção, roteiro e apresentação: Paulo Azevedo (@pauloazevedooficial)

Trilha sonora original, gravação, edição e mixagem: Conrado Goys (@conza01)

Identidade visual e arte: Glaura Santos (@glaurasantos)

Colaboração: Suacompanhia (@suacompanhiateatro)

Realização: Comcultura (www.comcultura.com.br)


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