por Paulo Azevedo, do podcast @almasculina
fotos @vitorvieirafotografia

Vivemos num tempo intenso, paradoxalmente delicado e violento. Delicado porque ninguém sabe ao certo o que pode nos acontecer no futuro próximo. Já soubemos alguma vez? Violento porque as desigualdades estão escancaradas, a descrença naqueles que poderiam evitar catástrofes maiores, o medo, a ansiedade… Nesse mesmo cenário, temos a chance de deixar de lado crenças limitantes, preconceitos e ampliar as perspectivas, os afetos. Ter um pouco mais de empatia. Rever os contornos da paisagem que nos rodeia. Do seu “quadrado”. Aliás, essa forma geométrica já foi usada em tantos contextos. As linhas retas que o formam podem nos proteger. Mas não podem nos isolar do externo. Nestes tempos, o que no outro nos afeta, nos diz respeito e nos faz agir (ainda que à distância) e o que nos violenta? 

Há milhares de anos, o mundo se deparou com uma pista pra isso. Uma invocação que perpassa várias religiões, de distintas formas: “Amar o próximo, como a si mesmo”. No livro “Amor líquido – Sobre as fragilidades dos laços humanos”, do sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, ele dedica um capítulo a decifrar essa mensagem numa sociedade pautada pela descartabilidade nas relações, a cultura do “cancelamento”: “Amar o próximo como amamos a nós mesmos significaria então, respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o torna um lugar mais fascinante e agradável, aumentando a felicidade de suas promessas”. Afinal, o que nos impede de seguir aumentando as divisas dessa utópica felicidade?

Capa do livro “Amor Líquido – Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos” / créditos: Editora Zahar/divulgação.

The Man Box

Sabemos que nosso cérebro é “programado” para evitar o sofrimento e buscar a satisfação, a recompensa, a alegria. Nessa balança mental, mapeada pela neurociência, nos vemos cotidianamente tomados por uma série de pensamentos, que geram hábitos, moldam muitas de nossas ações, definem pressupostos em relação a tudo que nos rodeia. Muitos preferem seguir inconscientes da origem ancestral de certas barreiras, que nos impedem de olhar o diferente de determinados padrões herdados. 

Os homens, por exemplo. Crescem identificados com limitações do que um “homem” deveria ser e o que ele deveria acreditar. Pesadas expectativas, reforçadas pela família e pela sociedade, as quais tornam mulheres objetos e propriedades dos homens, enfim, têm menos valor que eles, assim como outros grupos marginalizados. Tem até um termo pra isso: “The Man Box”.  Dentro da caixa estão os comandos de que o homem deve, acima de tudo e todos, ser poderoso e dominador; destemido e no controle; forte e sem emoções; além de bem-sucedido. 

Conhece alguém que cumpra todos os itens acima? Quem suporta tamanho peso? Numa sociedade patriarcal, materialista, sexista, muitos deles ainda contam a cobrança e o estímulo das mulheres. Mesmo os mais oprimidos, a maioria da população negra do nosso país e a comunidade LGBTQ+, ainda hoje, trazem traços introjetados desse sistema. 

Invocações milenares

Mas há esperança. Com um pouco de humanidade, algumas histórias nos mostram como é possível sair do próprio quadrado e aprender com quem, em princípio, extrapola todos os limites da moral. E nos obrigam a adicionar critérios como compreensão e sensibilidade, além, de autocrítica. “Não julgueis para não ser julgado”, também nos exortaram anos atrás. Quantos aprendizados milenares deverão ser repetidos, de tantas formas, nos próximos anos?

Trailer do documentário “Circus Of Books” / créditos: Netflix/divulgação.

Recentemente, me deparei com 3 histórias verídicas, todas disponíveis na Netflix. Todas trazem em comum famílias que se veem obrigadas a “sair do armário”, é uma tradução brasileira do mix de duas expressões inglesas: Uma usada para debutantes que se apresentavam à sociedade e outra, sinônimo de um segredo vergonhoso. Essa expressão, de forma antiquada e heteronormativa, é aplicada ao homossexual que “assume” sua orientação sexual, socialmente. Nessas histórias, quem está no “armário” ou preso ao próprio “quadrado” não são os protagonistas, mas os coadjuvantes. Curioso isso, não? Aquele que dá o passo, quem é realmente “destemido”, “forte” e “no controle” da própria vida, itens básicos da The Man Box são pessoas que assumem o amor como primeira opção. E suas doloridas consequências. 

Em Circus of Books” (2019, “Atrás da Estante”, no Brasil), uma família americana abre o baú de memórias enquanto acompanhamos os últimos dias de uma locadora voltada para a pornografia gay. Os donos? Um discreto casal de Judeus, pais de 3 filhos. Nessa história, o casal conta como lidava com o segredo de serem um dos maiores distribuidores do ramo nos EUA. E como ultrapassaram o preconceito e se tornaram ativistas de uma organização para aconselhamento e educação de pais de filhos homossexuais.

O giz da moral

A outra história, “Minhas Famílias” (2019), o diretor Hao Wu, conta sua própria história. Como conciliar o amor pelo seu marido Eric e os recém-chegados dois filhos com os tradicionais princípios chineses de seus progenitores? Os depoimentos, em especial da mãe, expõem cada um na busca de lidar com estigmas milenares. Aceitação e afeto,  versus honra e conservadorismo,  numa narrativa curta e envolvente. 

E pra você: como fica essa balança?

E num mundo dominado por líderes homens, que esbravejam absurdos e escancaram atrocidades sem qualquer sinal de constrangimento, do Canadá a última história: “Secreto e Proibido” (2020). O documentário relata a jornada de duas bem-sucedidas mulheres que, em 1947, contrariam todas os tabus sociais e se apaixonam, decidindo viver esse amor secretamente por mais de 60 anos. Repleto de imagens e depoimentos comoventes, é impossível não invejar tamanho comprometimento, cuidado, amizade e companheirismo. Quem um dia não sonhou com isso? Quem? Quem nunca almejou sentir o apoio de alguém que suporte seus defeitos e te ampare nas suas vulnerabilidades?

Trailer do documentário “Secreto e Proibido” / créditos: Netflix/divulgação.

Minha família tem casos similares a esses. Imagine: tive 21 tios, entre Piauí e Minas Gerais, de várias classes, raças, crenças, visões políticas… Hoje espalhados pelos continentes. Diversidade pura. E o que fica pra mim, dessas (dentre inúmeras apagadas e marginalizadas pelo mundo) histórias são muitos questionamentos. Por que ainda preferimos demarcar nossos “quadrados” com o giz da moral, da ignorância e da imposição de pontos de vistas, baseados em moral religiosa e não científica? O que fazer pra mudar um cenário que nos trouxe até este momento difícil do mundo? Como sabem, busco frestas de possibilidades mesmo na dura realidade. E Bauman, novamente, nos lembra: “Talvez fosse melhor mudar os costumes do mundo e tornar nosso habitat mais hospitaleiro à dignidade humana, de modo que amadurecer não exigisse comprometimento da humanidade de uma criança”.

PS: Depois de assistir as indicações, adoraria saber se você tem alguma história parecida pra compartilhar.

Paulo Azevedo (@pauloazevedooficial) é ator e comunicador, idealizador do podcast almasculina.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *