A preparação como base para a curiosidade

Paulo Azevedo (@soupauloazevedo)
Depois de mais de 70 conversas conduzidas no meu podcast almasculina, aprendi a desconfiar das perguntas que já chegam com a resposta pronta.
Eu acredito muito em pesquisa, pauta e organização prévia. Porém, existe uma diferença enorme entre preparar uma conversa e tentar controlá-la.
Quando faço uma pergunta esperando apenas que o outro confirme minha hipótese, não estou realmente curioso. Estou apenas conduzindo a pessoa para um lugar que já escolhi antes de ouvi-la.
Por outro lado, uma pergunta só abre diálogo quando aceitamos o risco de receber uma resposta inesperada.
No podcast, onde eu realizava diálogos abertos sobre as masculinidades e o papel dos homens no mundo contemporâneo, vivi muitas vezes aquele instante em que a resposta de um convidado tornava a próxima pergunta do roteiro irrelevante.
Nesse momento, eu tinha duas escolhas: seguir a pauta para mostrar que estava preparado ou abandonar o roteiro para estar presente ao que acabara de surgir. As conversas mais marcantes nasceram da segunda escolha.
Levo esse aprendizado para os trabalhos que conduzo nas empresas através das ações da ComCultura. Em uma reunião individual, um feedback ou em uma conversa de liderança, é muito fácil transformar perguntas em afirmações disfarçadas:
“Você não acha que deveria ter feito diferente?”
“O problema não foi falta de alinhamento?”
“Está tudo bem com o time, certo?”
A frase termina com um ponto de interrogação, mas o espaço para o outro responder já nasceu pequeno.
Uma pergunta verdadeira cria a possibilidade de aparecer algo que ainda não estava previsto. Isso exige curiosidade e humildade. Ouvir de verdade pode nos obrigar a rever uma leitura, mudar uma decisão ou reconhecer que o outro percebeu algo que nós não vimos.
Talvez seja por isso que entrevista, teatro e consultoria se encontrem tanto na minha trajetória. Nos três, eu posso estudar profundamente o contexto. Mas, quando o encontro começa, preciso estar disponível para aquilo que emerge na presença do outro.
Preparação me dá estrutura. Curiosidade me permite sair dela.





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